Bateria de filmes vistos nos últimos dias
Os Inocentes
Revi esses dias, e cresceu mais ainda (a versão que vi na TV não tinha alguns sustos fenomenais, que me pegaram realmente desprevenido ao ver no DVD). Assusta e arrepia sem o menor uso de efeitos, apostando apenas no clima. A sexualidade ousada (provavelmente a cargo de Capote, que co-escreveu o roteiro) é um contraponto maravilhoso à noção de decência de uma mulher correta como a protagonista, interpretada por Deborah Kerr com uma fragilidade e sensibilidade comparável à de Mia Farrow em O Bebê de Rosemary. Disparado meu filme de suspense preferido, ousado, perturbador (a cena do beijo é de derrubar da cadeira), aterrorizante e estupendamente filmado.
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Uma Linda Mulher
Finalmente assisti ao clássico supremo das comédias românticas. Se continuo achando Richard Gere insípido, inodoro e incolor (salvo os cabelos cinzentos), aqui essas “qualidades” são usadas para construir seu personagem (Keanu Reeves? Isso mesmo). Julia Roberts dá um show, nunca extrapola seu personagem por parecer muito glamurosa, ou muito previsível, ou muito bagaceira, ou muito inteligente. Acerta na mosca ao construir uma mulher que, como todas as outras, (prostitutas ou não, pobres ou não) apresentam muita complexidade emocional. O fato de Richard nunca a beijar adiciona para a tensão romântica do casal, que tem uma ótima química, graças à simpatia canastrona de Gere. A relação ganha complexidade por causa de um roteiro que explora maravilhosamente bem todas as barreiras que separam os dois, assim como a diferença de classes sociais quase medieval e as bem elaboradas discussões entre o casal. O psicológico de ambos é bem definido, e mesmo assim, nos surpreendemos e nos pegamos a pensar sobre alguns diálogos antes de entendermos exatamente o que se passa na cabeça daquelas pessoas. Eu tive a sensação de ser frio, pois o roteiro é guiado pelo lado mais emocional do ser humano, e, mesmo quando soa piegas, forçado e/ou simplório (exemplo: o personagem de Jason Alexander, um mero pavio dramático), não destrói toda a maravilhosa construção de personagens pela janela. E, sim, no caso, o final é um tanto forçado e simplório. Mas fica claro por que esse filme se tornou o exemplo para todas as comédias românticas seguintes. Infelizmente, em termos de complexidade, nenhum alcançou o nível do material original. Nem conseguiu uma imagem tão icônica como a de Gere esperando sua amada no fim da escada.
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Batman Begins
Revi anteontem, e achei melhor que da primeira vez. Só desconto a atuação nada convincente de Katie BLERGH Holmes, alguns flashbacks chatinhos e alguns furinhos de roteiro (por que começam a vaporizar a água na ilha, já que o treco era bem fácil de carregar? Por que Gordon explode bem os últimos pilares do metrô, e não alguns antes? Como a máquina não vaporiza a água se cai bem embaixo da Torre Wayne?). Fora isso, tem diálogos interessantes, ação genial (uma das grandes perseguições de carros que já vi), edição elegante (não quer dizer “clara”, se a cena não pede, como o ataque nas docas), fotografia belíssima e um elenco de peso. A narrativa é poderosa e muito bem conduzida, e a comparação de Batman com um ninja (adicionando um elemento novo na história do herói) e a de Ra’s Al Ghul com Bruce Wayne (criando uma inabalável dubiedade moral) são o que elevam esse filme a um nível tão inalcançável para a maioria das adaptações de HQ. Ainda tem algumas ingenuidades em sua história, mas isso é perdoável, pois os resquícios da inocência presente em algumas HQs do personagem não sumiriam até a continuação, O Cavaleiro das Trevas.
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Quebrando Regras (Never Back Down)
Filmeco de luta que tem defeitos demais pra contar, mas eu vou tentar. Tem qualidades, como Wyatt Smith, Djimon Honsou e Leslie Hope eficientes em seus limitados papéis, e até mesmo as lutas: limpando os excessos, são bem filmadas. No entanto, todo o resto do elenco trabalha mal até não poder mais, mal expressando os óbvios sentimentos que o roteiro insípido joga aleatoriamente na história. Tudo é previsível até dizer “chega, tira o DVD”. A mensagem é patética, a mesma de sempre coberta com um pano de fundo moralmente esquizofrênico que copia “Clube da Luta” além da conta. Milhares de cenas são cópias descaradas de “Menina de Ouro”, também. E, para completar, os flashbacks com o pai do protagonista mostram uma limitação atroz tanto do roteirista (ele não desenvolve a relação de jeito algum) como do diretor, que usa e abusa de cenas repetidas e ainda usa uma estética vomitada dos piores videoclipes das Pussycat Dolls, com câmeras rápidas/lentas aleatórias, edição desconjuntada e fotografia berrante sem nenhum propósito. Junte-se a isso a pior seleção de músicas para um filme (todas, repito, TODAS são mal utilizadas e quebram o clima da cena, seja qual for) e, de brinde, ganho um sério competidor para pior filme da minha vida. Pior do ano, fácil, se não competir com “10.000 AC”. Aí, dá empate.
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A Noviça Rebelde
O que gostei mais em A Noviça Rebelde é que é previsível só nos momentos de tristeza. Óbvio que, quando ele fica triste, ele vai melhorar, dá pra ver fácil o que vai acontecer. Por outro lado, o filme usa a felicidade de um jeito primoroso: não hesita em incluir várias surpresas felizes. Enquanto imaginamos, baseando-se em filmes batidos, que as crianças só vão perceber o valor da Maria quando ela se for, ou que alguns problemas demorarão a ser resolvidos, o roteiro apressa-se em tomar caminhos felizes. O relacionamento entre as pessoas é visto de forma otimista, o que acarreta nessa impaciência em resolver os problemas entre os personagens. O Capitão se enternece bem antes do que imaginamos, e uma surpresa distintamente profunda tomou conta de mim ao ver que a Baronesa não era um personagem desprezível, no fim das contas. O otimismo é usado para dar uma força ao roteiro que poucas vezes foi alcançada com esse artifício.
É como A Casa dos Espíritos invertido, e com bons resultados – a bomba força nas “surpresas” tristes, nunca soando mais que artificial. Nada é artificial no musical de 65, nem a atuação das crianças (nenhuma se excede nem se acanha diante da câmera), nem a de Andrews e Plummer, perfeitos em papéis diferentes que se aproximam. A trilha sonora é espetacular, nenhuma das canções é chata (diferentemente dos musicais atuais), e todas servem para complementar o mundo mágico do filme e aprofundar as relações de seus personagens, obrigações de todo musical. A fotografia é de uma ludicidade e beleza incomparáveis, uma das mais belas de todo o Cinema, aproveitando as paisagens maravilhosas com ângulos e movimentos de câmera incrivelmente bem utilizados, não só no quesito visual, mas na qualidade da direção. Até no figurino a excelência é alcançada, algo visível pela mudança de roupas dos personagens ao longo da história. Um grande musical que merece toda sua fama.
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Ia falar de Batman – O Cavaleiro das Trevas, mas ia ficar meio longo. Nota 10. *****. A+.
Por: Pedro De Biasi
Ainda não vi tudo, mas muito me agrada.
Estou impressionada com a qualidade do novo cinema argentino. Não gosto de rótulos geográficos, entretanto, devo destacar a eficácia de toda uma geração.
“Não acredito em regras para fazer cinema sob aspecto nenhum, nem nas da nouvelle vague, nem nas do neo-realismo italiano, nem nas do Dogma, nem nas de Hollywood. Cada filme tem suas próprias regras”, disse Pablo Trapero, um dos diretores cultuados da nova era argentina.
Já que os próprios realizadores não aceitam esteriótipos. Vamos aos fatos.
Em 1995, o Incaa (Instituto Nacional do Cine e do Audiovisual Argentino) aprovou uma lei para promover e regulamentar as atividades cinematográficas fundamentadas na cobrança de taxas sobre as entradas nas salas de cinema, a venda de fitas de vídeo e DVD, além da taxação da publicidade na TV. Essa medida permitiu o financiamento, através de créditos e auxílios, de produções nacionais e também o surgimento de novos profissionais. Uma das iniciativas do instituto foi a premiação do ciclo “Histórias Breves”, uma reunião de curtas metragens de cineastas iniciantes.
Para começar a assistir los hermanos
Lucrecia Martel: Possui uma espécie de “câmera nervosa”, é impossível não sentir estímulos de incômodo durante seus filmes. “O Pântano”, “A Menina Santa” (produzido por Almodóvar) e o ainda inédito no Brasil “La Mujer Sin Cabeza”, encabeçam sua curta e já premiada carreira de longas-metragens.
Saca “Beleza Americana”? Multiplica por 3.
Tome nota: Lucrecia Martel odeia a expressão “novo cinema argentino”. Ela ia odiar esse texto.
Ela me lembra François Ozon.
Juan José Campanella
Responsável pelo aclamado “O Filho da Noiva” e vamos combinar, o filme é de uma excelência ímpar. Antes da consagração desse filme, Juan dirigiu o belo e romântico “O mesmo amor, a mesma chuva”. A grande marca de Juan é a maneira cativante de conquistar o espectador com histórias simples de uma poesia cotidiana.
Tome nota: Falar de Juan José sem falar de Ricardo Darin, é como falar de Tim Burton sem citar Johnny Depp. O ator participou de seus três filmes: “O filho da noiva”, “O mesmo amor, a mesma chuva” e “Clube da Lua”. Avião sem asa, fogueira sem brasa…
Pablo Tepero
Pablo foi indicado ao Festival de Cannes esse ano por “Leonera”. Seu grande marco, contudo, até agora é “Família Rodante”. Seus dramas familiares são fortes de expressão única.
Tome nota. Bom demais
Se um cinéfilo argentino ler meu post, possivelmente, irá me considerar uma pseudo conhecedora. Mas creio que para nós, latinos, que vivemos um bombardeio cinematográfico atual, ficar por dentro desses novos nomes e através deles, conhecer outros tantos, já é um avanço.
Espero que Walter Salles, Meirelles, Beto Brant e cia tenham chegado ao conhecimento dos nosso vizinhos.
Por: Rachel Turetti
Razão e Sensibilidade
Analisando a antiga sociedade londrina com aspereza e abrangência, “Razão e Sensibilidade” catalisa essa visão através de uma história de romances estilhaçados e corações marcados. O título engloba os paradoxos que fizeram do livro de Jane Austen um clássico do drama literário, distinguindo duas irmãs que parecem não ter nada em comom. Elinor é uma mulher sensata, razoável, cujas emoções nunca afloram e cujo peito guarda uma quantidade imensa de dor, pois ela se torna o pilar emocional de uma família destituída de seu patriarca. Marianne, é a sensível, a que se entrega de corpo e alma, a que sofre por amor, a romântica.
Essa história é uma reflexão intimista sobre o que acontece em relacionamentos com pessoas diferentes. Não por acaso, vários casais aparecem: Marianne e o Coronel (representa o amor esforçado de um homem de impecável índole que a mulher falha em ver), Marianne e Willoughby (ele explicita a incapacidade do sexo masculino de se deixar levar pelos sentimentos, implicando em sofrimento posterior), Elinor e Edward (curiosamente, a mulher ‘fria’ e o romântico incompreendido protagonizam o romance mais clássico entre todos), e, para fins cômicos, Sr. e Sra. Palmer (são o protótipo do casal que não se ama, mas que encontrou na falsidade de um e na sinceridade de outro as resposta perfeitas para todos os problemas conjugais).
Dirigido pelo formidável Ang Lee (seu trabalho de direção é singelo e ainda tem momentos inspirados), o elenco é um show à parte, com Imelda perfeita em seu papel encomendado (ela é uma fonte de sorrisos) e Hugh Laurie ótimo como seu ríspido cônjuge. Hugh Grant não está em seus melhores momentos, mas consegue passar a timidez de Edward bem. Kate Winslet, num ensaio para o bem mais açucarado Titanic, se entrega ao romantismo do papel sem medo, e até Alan Rickman se mostra uma escolha acertada, pois o Coronel carrega uma aura lúgubre e mostra mais pelos atos, e menos pelas expressões, o amor que sente por Marianne.
Mas o destaque vai para Emma Thompson. Ela é a escolha óbvia quando um diretor quer uma personagem contida, e aqui, essa característica qualidade da atriz é utilizada para um efeito impressionante. É inexplicável o que os olhos de Emma passam, ao que Elinor é forçada a passar pelas mais duras provações. As pupilas da mulher parecem um cano de despejo, um aspirador de mágoas, pois nunca seus olhos são firmes ou seguros. Eles não vacilam, suportam tudo, mas o fazem de forma passiva, algo que passa longe da frieza, escancarando um martírio indizível. Emma delata a emotividade da personagem desde o começo, e isso é brilhante, pois a única coisa que muda em Elinor é sua capacidade de agüentar a dor trancada em seu peito, e não a intensidade de sua mágoa. As poucas cenas em que ela se rende às lágrimas são arrasadoras, e a dificuldade que ela encontra em chorar reflete a dureza de uma mulher que mal sabe o que é verter água dos olhos.
Na parte técnica, destacam-se a fotografia, de tonalidades fortes (românticas) e marcantes, e o figurino, que não só representa um trabalho acurado de produção histórica, mas também uma metáfora para as idéias apresentadas pelo surpreendente roteiro de Emma Thompson – que podia ter pegado mais leve nas reviravoltas, às vezes apressadas. Afinal, os homens, sempre galantes, são os que mantêm a fachada, os que fingem não sentir nem sofrer, por isso usam um vestuário finíssimo. Já as Dashwood usam sempre roupas mortas, mais apagadas que a dos empregados, pois indicam pessoas cujos corações estão agonizando de sofrimento. É um figurino tipicamente expressionista, assim como os bem adaptados diálogos. Embora o filme acabe romântico, seu trunfo é criar um arco dramático de respeito para o que, hoje em dia, se tornaria uma comédia romântica vagabunda em Hollywood.
*****
Por: Pedro C. De Biasi
O assunto é: Para-ty
Ontem deu-se inicio a Flip (Festa Literária Internacional de Parati), para ter noção da grandiosidade do evento, nomes como Ian McEwan, José Saramago, Gabriel Garcia Márquez já passaram por lá. Sem contar os brazucas: Ariano Suassuna, Luis Fernando Veríssimo, Ferreira Gullar, entre outros pesos pesados. Desde que me enveredo pelos grandes sertões da literatura, tenho uma enorme vontade de ir ao acontecimento. As pessoas que convivem comigo já sabem da situação e por isso tentam, em vão, me consolar. “Ahh, Juiz de Fora tem o Festler. Vai vir Moacyr Scliar, Arnaldo Antunes…”. Sofismas não me interessam. Não quero a mulher que passa . Prefiro o distante, o platônico. Pareço uma criança observando tudo através da fresta. Sites, jornais, informativos servem de alimento. Sou o maior agente passivo dessa história. Existe a possibilidade de eu ir ao evento no próximo ano. Contudo, sempre reflito naquele futuro mais distante, ou seja, no qual ficamos velhos, aonde pensarei “Quando eu era menina me perguntavam qual era meu desejo, hoje, meus desejos são óbvios, mas se me indagassem novamente, diria, voltar a ser menina e sonhar com Paraty.”. Amamos o desejo, não o ser desejado, disse Nietzsche. Possivelmente, o filósofo alemão tinha razão. Certa vez, Clarice Lispector foi a um congresso latino-americano de escritores juntamente com sua amiga Lygia Fagundes Telles. Clarice puxou Lygia e disse: “Ninguém entende nada, é besteira. Vamos beber.” É isso que irei fazer, antes da Flip chegar.
Wall-E.
Direção: Andrew Stanton.
Mais uma animação.
Outra vez a Pixar surpreende com o lançamento de Wall-E.
Nesse filme temos como personagem principal um robô que tem como função limpar a sujeira deixada pelos humanos na Terra. (E, de fato, ele faz isso durante os primeiros 20 minutos de filme.) Mesmo sendo um personagem difícil de tornar-se carismático, o pequeno Wall-E faz com que nos apaixonemos já nesses minutos iniciais.
Com um tom poético em cada gesto mais simples, esse humano em pele de robô não só transmite a mensagem de salvação do planeta, mas, principalmente, reaviva a mensagem do amor.
Sendo Wall-E e EVE dois personagens bem carismáticos e com características muito próprias, podemos sentir como a relação entre eles vai se transformando, assim como nós também mudamos quando estamos apaixonados.
(Não tenho palavras para comentar sobre o quão explicito é o sentido do amor nesse filme, mas, para quem assistir tudo se resumiria na cena em que eles dançam do lado de fora da nave, simplesmente lindo.)
A parte técnica e visual são impecáveis. Muito boa direção de arte.
A construção de personagens, que se comunicam muito pouco e mesmo assim nos atraem, é estupenda.
Um roteiro que nos faz repensar, um pouco mais maduros que os anteriores. (Talvez, um filme para adultos, pois tem um time que não deve agradar muito as crianças).
Como se não fosse o bastante, o curta que precede o filme é ótimo, hilariante.
Enfim, Wall-E é uma animação ousadíssima. Apaixonante.
Por: Vinicius Ellero.
Letra e Música
Essa deve ser a melhor comédia romântica da Drew Barrymore que já vi, mas, com Nunca fui Beijada e Para Sempre Cinderela no currículo, fica difícil ver uma grande qualidade nisso. Para começar, não há muita coisa que faça esse filme diferir dos outros. O interesse amoroso do protagonista é esquisito e entra de forma bizarra na história; eles logo mostram afinidades que os unem; logo, têm a primeira noite; ainda mais logo, têm uma briga que os faz se separar; e, no final, se unem de novo. Há mais alguns clichês espalhados pelo filme, mas o grande problema é o final, que é pior que o normal.
Não que se espere um final diferente de uma comédia romântica (o surpreendente Separados Pelo Casamento me vem à mente), mas no caso de Letra e Música, a decepção é grande. Há discussões e aspectos dos protagonistas a que o roteiro acena que poucos filmes do gênero tentam criar, como a diferença de gerações, e os diferentes modos de se ver a vida – nem o dele nem o dela é visto como errado, algo que me agrada muito num roteiro e demonstra inteligência. Infelizmente, o final simplifica tudo que poderia ter sido complexo e inteligente, e aniquila os questionamentos em detrimento de uma conclusão nada inspirada, e pior: destrói o que poderia ter sido o grande diferencial do filme.
Claro que há qualidades, como a atuação bem calculada entre o caricato e o simpático de Hugh Grant e a ambientação no mundo das celebridades da música (dá liga para piadas eficientes e espertas sobre o atual mercado fonográfico). Embora não haja tantas quanto um filme tão musical demande, as canções são todas espetaculares, inclusive as baboseiras da cantora zen-putista, Cora, perfeitamente de acordo com a proposta de serem ruins – e especialmente boas por lembrarem certas cantoras atuais. Outras músicas surpreendem por conseguirem reunir os vícios do pop-rock dos anos 80 (o clipe que abre o filme é genial) e, droga, realmente grudam na cabeça. Os letristas devem ter tido mais dificuldade que o roteirista Marc Lawrence.
omo diretor, Marc só acerta realmente no visual bonito do filme e por colocar a música como tema central (incluindo uma bacana comparação entre música e relacionamentos), pois não faz nada de mais por trás da câmera – e usar uma paisagem urbana para indicar passagem do tempo é de uma preguiça fenomenal. Sem contar que Drew Barrymore não surpreende, apenas reprisa os personagens mais derivativos de sua carreira, e, nos melhores momentos, alcança uma pálida simpatia, nada mais. O filme conquista pelo charme das músicas e pelo tratamento dado ao tema, pois como comédia romântica, não sai do círculo de clichês que deixa todos os filmes do sub-gênero com aquela sensação de xerox.
*** de *****
Por: Pedro De Biasi
Um arrasa-quarteirão. Nenhum CGI. E uma grande qualidade perdida no filme mais sem sal imaginável.
Fim dos Tempos (The Happening), de M. Night Shyamalan (2008, 90 minutos)
“Fim dos Tempos” não é exatamente um filme ruim. Ele é só nulo, um caso raro em que não sobra emoção nenhuma depois da projeção. Embora as falhas do filme sejam numerosas, ele não deixa aquele gosto amargo. Não é “10,000 A.C.”, aquela bosta que só encontra redenção no ato de colocá-lo na lista de piores do ano. só para permanecer no território de Shyamalan, esse filme não é “A Dama na Água”, um desastre cuja única qualidade é estofo para discussões de como não se fazer cinema. Isso é novo para o indiano: um filme completamente medíocre não só em aspectos artísticos e técnicos, mas no impacto. Não há impressão negativa ou positiva ao se ver esse filme vazio. Ele deixa na boca um gosto que lembra automaticamente tofu. Tem pessoas que gostam de tofu, mas é outro caso.
Não que não haja problemas na película, pois há muitos. Alguns lembram o filme da ninfa, obra anterior do diretor, especialmente ao se prestar atenção nos personagens secundários. O “idiota-que-exercita-um-só-braço” encontraria muita companhia aqui, já que quase todos os personagens de menos participação são meramente esquisitos, como se isso fosse o bastante para despertar interesse. Sem esquecer o homem-planta estrábico, o nada militar soldado e o garoto que entende tudo de relacionamentos, o troféu de pior personagem vai para a velhinha psicótica (Betty Buckley), que entra em grande estilo na terceira parte do filme e deixa uma impressão horrenda. Ela é totalmente imprevisível, mas, em vez de aumentar a tensão, ela apenas causa risadas involuntárias, sendo que havia material para uma sensação tenebrosa, ou até alguma significância adicional para a história – o melhor que pode ser dito é que ela mostra que mesmo gente do campo sofre com o caos verde.
Infelizmente, não há só problemas com os coadjuvantes. A simplicidade tanmbém reina nos personagens principais. Afinal, Shyamalan REALMENTE achava que professores só falram de suas disciplinas, ou incluiu álgebra e biologia em tantos diálogos só porque parecia divertido? Se ele realmente usasse essas estranhezas para alguma coisa, estaria tudo bem, mas a maioria delas (os passos para se analisar um fenômeno, a bizarra citação do tubo de comunicação da casa da velha) são só artifícios do roteiro, elementos que facilitam o processo de alcançar o final desejado. O casal principal, Elliot (Walhberg) e Alma (Deschanel), também tem uma porção de problemas, como serem limitados a tolas discussões de relacionamento e perderem força pela atuação apática da garota dos olhos azuis, só adequada quando ela deve fazer cara de bichinho parado na estrada prestes a ser atropelado.
Já John Leguizamo sofre por causa de um erro grosseiro: ele é o único personagem interessante, mas é negligenciado pelo roteiro. 30 minutos e um par de cenas fortes depois dos créditos iniciais e ele desaparece, como se o diretor Shy quisesse se livrar das qualidades o mais breve possível (ele filmou a produção em ordem de roteiro, e realmente, nada funciona depois da primeira parte). Mais exemplos estão por aí, como a péssima apresentação do homem-planta (seu estrabismo é mostrado naturalmente, mas o trivial ato de falar com plantas gera uma desnecessária e imbecil tentativa de humor, como se ele fosse louco), e a trilha sonora, que, como em “Conduta de Risco”, é lindíssima, mas pouco se encaixa no clima do filme, com uma pegada serena melhor para um filme de fantasia e uma mania patética de aumentar sustos. A própria direção, que insiste em focar os oslhos dos atores, tem problemas, especialmente quando a atriz principal (foda-se o nome dela) está esbanjando canastrice sem nenhuma vergonha.
Isso é uma pena, porque o indiano (seja como diretor ou como roteirista) faz algumas boas opções, até evitando clichês. Por exemplo, ele vira a regra “não podemos nos separar”, comum em suspenses, de cabeça para baixo. Outra grande rejeição de lugar-comum aparece quando Elliot tente decidir o que fazer, enquanto pessoas se matam do outro lado da colina. Os outros, idiotas, querem tentar ajudar, mas ele mostra bom senso ao evitar dar uma de herói (não há como defender os suicidas) para salvar seu grupo. Por outro lado, Shyamalan demonstra coragem de sobra, usando normalmente com bons efeitos: há muita violência no filme. Mesmo que alguns suicídios (o travelling besta da arma, o ataque dos leões) se tornem pouco impactantes, alguns momentos aleatórios impressionam pela crueza, especialmente uma forte cena de violência contra jovens – algo raro no cinema. E não pode-se esquecer que sustenter um filme inteiro, curto que seja, com um inimigo 100% invisível é de uma bravura invejável
Ainda na lista de qualidades, Mark Wahlberg surpreende depois de encarnar papéis de temperamento forte. Seus olhos e voz não passam nenhuma confiança, porque Elliot está totalmente vulnerável e é incapaz de comunar a situação – para o desespero do espectador. Ele é capaz de sobreviver a esse inferno? Bem… que inferno? Ainda há um assunto – o mais importante do filme, a meu ver – a ser discutido: o sentimento de cataclisma. Afinal, as toxinas indutoras ao suicídio se espalharam por toda a costa dos EUA, criando um evento de enorme escala, e a grande razão para “Fim dos Tempos” ser uma experiência nula é a absoluta falta de desespero. Um par de cenas mostra os suicídios (algumas regadas por virtuosismo anti-clima), mas falham em criar uma conexão com o evento em si, dando a impressão de casos isolados. Talvez tomadas aéreas mais complexas resolveriam, ou talvez maus pessoas deveriam se matar no mesmo lugar, mas suposições são inúteis: o fato é que Shyamalan errou a mão.
Já que se está no meio de um pandemônio gigantesco, a falta de proporção é muito problemática, arruinando o que poderia ter sido uma pesada sensação de “inferno na terra” que muitos filmes, desde “Madrugada dos Mortos” até “Filhos da Esperança”, alcançaram. Quando Elliot chora por causa daquele “pesadelo”, ele se refere à calamidade de proporções federais, mas não possível sentir o que ele sente (um problema grotesco em um thriller), já que o filme não oferece tal visão. Por outro lado, “Sinais” não criava só tensão através do (daquela vez, bem construído) caos global: a via crucis da família oferece outro ponto de vista, a das transformações que ocorrem em pequenos grupos sujeitos a situações extremas. Aqui, talvez com medo de ter os dois filmes postos em comparação, Shyamalan introduziu uma boba mudança na vida do casal (uma mudança pouco original, diga-se), fazendo com que “o acontecimento” pareça ainda menos reverberante que antes – não só ele não causa nada no espectador, ele não causa nada nos personagens principais. E há uma meia-resposta para essa sensação de falta, de algo incompleto, que arruina o filme ainda mais.
No final, é revelado que o evento foi só um aviso, um prelúdio para o acontecimento real. Isso explicaria por que o filme não é perturbador e apocalíptico: é só um ensaio para o show. Mas isso leva a problemas ainda mais substanciais. Para começar, por que um filme de hora e meia seria feito para mostrar uma introdução, em vez de uma produção mais longa (e, dependendo da duração, mais corajosa) que não parecesse tão incompleta? Para piorar, o título automaticamente se torna errôneo, já que esse não é “O Acontecimento”, é só “O Aviso”, “O Prelúdio para o Acontecimento” ou o “Acontecimento Zero”, um nome que evoca o maior dos problemas do final aberto: o filme se mostra fortemente necesitadio de uma seqüência. Não é uma seqüência que a audiência pede, por ter criado um sucesso de bilheteria, e sim uma de que o roteiro necessita, por ser uma criatura manca que não pode se sustentar sozinha. Se isso funciona em histórias assumidamente incompletas como um filme de “O Senhor dos Anéis”, dessa vez o “gancho” para uma continuação parece enganação: fazer um filme vazio só para garantir uma segunda parte é o jeito mais grotesco de um diretor garantir trabalho para si mesmo já inventado. Pensar que o filme é “só” incompleto dá menos nojo.
E se a discussão ambiental fosse pelo menos bem-feita, uma fraca motivação para a produção desse filme existiria, mas a mensagem é simples, resumindo-se a um batido “Nós estamos destruindo nosso mundo”. A idéia da vingança da Natureza é original, mas é tão mal desenvolvido que que só uma seqüência ofereceria esse aspecto de um modo que valesse menção, já que o roteiro é por demais breve e lotado de elementos deploráveis. “Fim dos Tempos 2″ também teria de consertar o estranho vácuo que os personagens são capazes de criar, já que é só fechar janelas e cortinas e o ar não entra. Da próxima vez, ou as pessoas morrem por asfixia ou são intoxicadas, senão um rombo no roteiro aparece e ele se suicida mais uma vez. Mas uma continuação pode nunca acontecer. E se “Fim dos Tempos” é realmente um filme único, então nada pode redimir a ausência de sensações – não que “Fim dos Tempos 2″ fosse impedir o primeiro de ser pavoroso. De um jeito ou de outro, uma introdução para uma estória não precisa ser nula, e o filme de Shyamalan é definitivamente nulo. Talvez da próxima vez ele ainda tenha algo para dizer, e o diga do jeito certo.
** de *****
Por: Pedro De Biasi
Persepolis.
Não sou lá muito fã de animações (não que seja contra), mas, para essa, eu tiro o chapéu – e todo o resto da roupa.
Já a tinha assistido, re-vi ontem. Novamente me surpreendi.
Vou começar falando do seu plano de fundo: Um Irã em guerra.
Provavelmente seria um bom tema a ser tratado, mas, nesse filme, se vai mais longe.
Talvez nem se chegue a essa linha documental.
O verdadeiro tema abordado é o questionamento da vida. O quanto as coisas passam e você nunca acha uma saída e, muito menos, encontra quem você de fato é.
Marji é um personagem delicioso, que você vai saboreando e não chega a enjoar. (principalmente quando ela é apenas uma garotinha).
É essa garotinha que mostra as dificuldades de uma adolescente vivendo sobre a censura religiosa do Irã em plenos anos 80.
Com momentos de reflexão alternados com momentos de piadas bem construídas, Marji nos remete a nós mesmos, pois, pior que enfrentar a censura é enfrentar a adolescência.
Quando seus pais a mandam para Viena, seus verdadeiros questionamentos começam.
A tentativa de se adequar a uma sociedade a qual não pertence, as mudanças corporais, os amigos, os amores, a busca por uma identidade própria. Tudo isso é o que ela busca (e quem não busca?)
Voltando para o Irã, seu mundo está diferente, porém os problemas não estão menores.
Finalizando, ela volta a pegar um avião, volta para a Europa, depois de um casamento frustrado e, entrando em um taxi ela reflete o que verdadeiramente somos, Nômades presos em um labirinto, tentando achar a saída, mas, talvez sem ter nenhuma esperança.
Um belo filme, bem contado, muito bem desenhado.
A fotografia é uma das mais bonitas que já vi. E o trabalho feito no branco/cinza/preto é ímpar.
Recomendado.
Por: Vinicius Ellero.
Tesoura na fita.
Chega de Saudede, de Laís Bodanzky. 92 minutos.
Com: Tônia Carrero, Cássia Kiss, Betty Faria, Stepan Nercessian, Jorge Loredo, Maria Flor, Paulo Vilhena, Leonardo Villar, Elza Soares
Crítica: Há muito tempo eu não via um filme brazuca no cinema (o último deve ter sido… nem lembro. Jesus, me chicoteia). Ontem assisti a Chega de Saudade, e me senti mal, pois, se essa obra deliciosa indica que perdi muitos filmes bons.
Não que seja um filme simplesmente fácil ou alegre. Há momentos de real tristeza, liderados por atores homogeneamente espetaculares e naturais, e, mesmo quando caem em previsibilidade, as cenas ajudam a construir personagens que, no geral, fogem de regras pré-estabelecidas e impressionam, não pela riqueza de polimento de suas personalidades (algo que alguns minutos a mais de projeção ofereceriam belamente), mas pela originalidade do tratamento delas. Por exemplo, finais felizes podem ser previstos, assim como potenciais tragédias, e o roteiro muda de rumo constantemente, para criar a sensação de não saber o que se esperar no final.
Outra grande qualidade do filme é a direção de Laís Bodanzky, que comanda uma câmera inspiradíssima, cheia de significado dramático e estético. O constante uso de músicas no fundo também é louvável, criando um ambiente muitíssimo bem construído – aqui fazem-se necessários elogios à direção de arte e à fotografia. Embora alguns elementos artificiais surjam de vez em quando (o choque do casal Flor e Vilhena, o apagão que degringola em situações mais dramáticas), nada compromete a pulsante sensação de se estar num real salão de bailes. Seja evitando clichês, oferecendo uma bela técnica de direção ou apresentando atuações vigorosas – até Elza Soares entra totalmente no clima – , “Chega de Saudade” é uma grande película nacional, uma prova de que pode-se perder muito ao negligenciar um filme só por ser nacional.
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Por: Pedro C. De Biasi, pela primeira de muitas vezes, fazendo o que amo. *Obrigada, Warner Brothers, pela oportunidade de trabalhar com tantas pessoas maravilhosas nessa empreitada magnífica!*