O Procurado

Agosto 24, 2008 at 4:38 pm (Uncategorized)

***¹/² de *****

Se por um lado, o novo filme de Timur Bekmambetov é centrado numa história de “aprendiz” igual à vista em “Kung Fu Panda”, por outro, ele perde o direito de usar clichês por não ter um conceito como o filme do urso. Aqui, os lugares comuns não se referem a um sub-gênero do cinema, e nem são usados como reverência: são apenas convenções que facilitam – e muito – o trabalho do roteirista, assim como o nosso, de descobrir o que irá acontecer. Óbvio que o cara vai olhar com estranheza para a sociedade secreta; óbvio que ele vai começar a concordar com o código de honra (o que leva a outra “surpresa” previsível); obviamente, ele também descobrirá segredos sobre todos (incluindo o superassassino interpretado por Thommas Kretschmann, um respeitável e sério ator); mais obviamente ainda, ele vai se tornar o fodão, porque, obviamente, é o escolhido – é genético, mas é o seu destino, como o filme mesmo diz.

Esse é o grande problema do filme: tenta ser “Matrix” demais. O monólogo final é interessante, mesmo que não alcance a ambição de mudar a vida do espectador, mas o que mata a mensagem é a última frase. Ela esfrega na nossa cara o que o filme quer passar (McAvoy vira para a câmera para dizê-la), tornando-a mais artificial que o aceitável. Claro que Wesley não quer que todo mundo tome controle total da vida: a idéia é só deixar de ser um bundão. A mensagem é até bem defendida, especialmente no travelling final, uma interessante cena por si só, mas, infelizmente, tudo perde a eficiência porque o roteirista achou que a audiência tem que pensar o que o protagonista pensou. E, na realidade, o arco dramático de Wesley, embora não seja incrivelmente original, ao menos cumpre bem o papel de desenvolver o personagem e envolvê-lo na idéia de controlar a própria vida. O erro foi tentar brincar de pílula azul/pílula vermelha com a platéia. Não colou.

Não que não dê pra entrar no universo concebido pelo filme. A idéia de um mundo onde pessoas podem ter um coração que funciona a 400 bpm, pular distâncias que Maurren Maggi nunca poderia imaginar e usar carros como trampolins é bem envolvente, no sentido “Carga Explosiva” da coisa. Por outro lado, a ficção científica entra quando as balas começam a voar em trajetórias curvas, banheiras se transformam em elixires mágicos e um tear gigante comanda uma organização inteira. E não é que dá pra entrar na brincadeira? Bekmambetov se recusa a dar uma explicação real para tudo aquilo, logo, esperar por uma é dar uma de pentelho. O filme se assume desde o começo como fantasia, especialmente pela ótima fotografia, avessa à moderação estética. Logo, o que ganharíamos reclamando que “é fisicamente impossível”? Nada. Só perderíamos um bom filme de ação.

A edição é bem eficiente, mostrando que Tony Scott não erra exatamente no uso de câmeras lentas e rápidas, e sim na quantidade de cortes, mesmo. Bekmambetov filma as cenas de ação com uma maestria linda de se ver, com slow-motion em peso, só que muitíssimo bem utilizado. Afinal, ver uma bala fazendo curvas em uma filmagem comum seria um pouco difícil para o olho humano. Sem contar que essa técnica dá peso dramático a certos momentos (nem sempre de forma rápida; às vezes só notamos a importância da cena mais tarde) e, em outros, dá um ótimo tom cômico. Assim como “Kung Fu Panda”… Chamarei de coincidência. Afinal, como diria Forrest Gump… Bem, deixa pra lá. Isso tudo, aliado a uma violência nada sutil e um tom perfeito (a narração de Wesley torna todas as transições de galhofa para seriedade bem feitas) fazem da direção de Timur o ponto alto do filme.

O roteiro, por outro lado, tem altos e baixos, a maioria dos quais já foi citada. Quanto aos altos, a narração em off pode ser considerada na lista, pois funciona na maior parte do tempo, especialmente numa breve fratura cronológica da história – algo que poderia ter aparecido mais vezes. Por outro lado, os flashbacks que aparecem no final são tão desnecessários que parecem imposição do estúdio. Espero que sejam, porque produtores não têm de defender suas imagens intelectuais como os roteiristas e diretores; o triste é imaginar um paspalho engravatado sujando o currículo de um bom profissional. Tudo vem embalado numa trilha sonora interessante, visivelmente diferente do que costumamos ouvir em filmões de verão – cortesia do choque cultural entre Bekmambetov e Danny Elfman, resultando em melodias adequadamente fantasiosas. E não tem como não bater palmas à direção de arte, que se preocupa com detalhes tão pequenos como os ratinhos de pelúcia e ímãs de armas espalhados pelo cubículo de Wesley, ao final do filme.

Se não é o filme mais original do mundo, ao menos “O Procurado” junta boas referências do cinema do diretor russo (as organizações secretas, a ação misturada com fantasia em doses corretas) com as necessidades de se fazer um arrasa-quarteirão. Claro que mesmo sem um diretor de respeito, Angelina Jolie, sexy como o capeta, Morgan Freeman, finíssimo, e James McAvoy, uma das promessas mais expressivas da atualidade, garantiriam um sucesso. Mas é Timur Bekmambetov que garante a pequena participação do russo Konstantin Khabensky, o ótimo protagonista dos dois “Dozor” do cineasta. Isso é algo que nenhum Spielberg pode comprar: o charme de um estrangeiro.

Por: Pedro De Biasi

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Vampiros de Almas (Invasion of the Body Snatchers)

Agosto 23, 2008 at 1:16 pm (Uncategorized)

***** de *****

Um clássico de 1956,”Vampiros de Almas” começa com o também clássico “Tudo começou assim”. E é incrível que o roteiro consiga criar tanta tensão mesmo com o final revelado de antemão. A grande atuação de Kevin McCarthy consegue liderar um crescendo de paranóia que atinge uma eficiência total. A direção de Don Siegel (“Dirty Harry”) também é responsável pelo ritmo perfeito e pelo tom impecável que é impresso ao filme. Usando de informações breves e diálogos concisos, o roteiro cria uma ficção científica sutil, mas de impacto: a primeira visão dos casulos é repentina, e convence graças a efeitos especiais de primeira.

E é interessantíssimo ver como as discussões filosóficas são tratadas com cuidado, pois são a cerne da profundidade da história. A visão dos “aliens” é totalmente coerente (quem nunca pensou utopicamente num mundo sem religião e ambições?), mostrando que o roteirista não quis facilitar a história e marginalizar, intelectualmente, os vilões. Tanto que são eles que recitam algumas das frases mais brilhantes do filme, que é cheio delas.

A mente é uma coisa estranha e maravilhosa. Não tenho certeza se ela um dia conseguirá se compreender. Tudo, desde o átomo até o universo, tudo a não ser ela mesma.

Para completar, a marcante trilha de Carmen Dragon, o ótimo design de som (a cena da fuga é intensificada pela sinistra sirene, que não para de tocar) e as surpresas arrepiantes do roteiro – a cena em que Miles dá o último beijo em Becky é inesquecível, assim como a icônica frase “They’re here!” – são perfeitos. De vez em quando a sacarose lambuza a história demais, mas nada que tire o brilhantismo de uma obra freqüentemente citada – e refilmada – no cinema de ficção científica.

Por: Pedro De Biasi

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Duro de Matar 4.0

Agosto 22, 2008 at 9:24 pm (Uncategorized)

*¹/² de *****

Meu deus, que lixo insano de fedorento. Como o péssimo Len Wiseman (Underworld e sua continuação, onde o estúdio estava com a cabeça?!) conseguiu errar em tantos pontos, só o roteirista explica, já que o material escrito é tão ruim quanto a direção. Afinal, qual é a da ação acerebrada, altamente absurda, se a idéia é se ater ao mundo real e sua generalizada “computadorização” moderna? E qual é a do humor, que bate de frente com a sensação de calamidade nacional? Se a ação desenfreada e ‘Carga-explosivamente’ exagerada é divertida, não dá pra não se perguntar todas essas questões.

Afinal, o filme mira para a sensação tensa de um amplo ato terrorista (elemento que a péssima trilha sonora tenta realçar), para uma crítica à sociedade contemporânea e à… ação acéfala. Não faz muito sentido no papel, e menos ainda na tela, causando uma confusão de propostas que acaba com o filme. Talvez as cenas adrenalinescas, recheadas de piadas deslocadas de McClane, sejam o melhor exemplo de como essa mistura dá errado. Falando no poliça, ele não usufrui da bênção de Indiana Jones: Bruce não segura as pontas, e tampouco empresta charme por retomar um personagem ‘icônico’.

Admito que Justin Long, um ator que eu prezo muitíssimo, está muito bem no filme. É até incrível que ele consiga apreender todas as caóticas inversões de tom sem soar caricato (quando não é necessário). Ele transborda charme como ator, dando de dez a zero em Willis, que oscila entre o mediano e o correto. Para completar, o roteiro nem carece de atenção (tudo é explicado no final, e os diálogos mela-cueca-de-nerd se mostram encheção de lingüiça), usa clichês até não poder mais, e ainda apresenta seus vilões (entre eles, Tymothy Oliphant, segurando as pontas) logo no começo, sabotando metade da tensão – que a comédia termina de arruinar. Adicione-se a isso efeitos especias irregulares (a cena da ponte é bem ruim), edição exagerada e tomadas que quase engolem o ótimo trabalho dos dublês, e temos uma aula de como não fazer um blockbuster.

Por: Pedro De Biasi

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Encarnação do Demônio

Agosto 20, 2008 at 9:35 pm (Uncategorized)

A trilogia se encerrou. O ciclo de Zé do Caixão foi completado. 40 anos depois, uma das maiores esperas para um episódio final no cinema, “Encarnação do Demônio” vem para terminar o que “À Meia-noite Levarei sua Alma” começou e corrigir o pecado do epílogo de “Esta Noite Encarnarei no teu Cadáver”. Pois, sim, o momento de fraqueza do Zé ao fim do segundo filme, por ser assustadoramente paradoxal com o personagem, é “explicado”, dando a credibilidade para retomar a trilogia com a última parte. Esse não é o personagem carcomido pelo tempo, ou desprovido de idéias pelo longo hiato criativo – e aqui falo tanto de Zé quanto de Marins, já que ambos tiveram suas artes suspensas por todas essas quatro décadas. A arte do vil coveiro é a arte de matar, defendida com muita força por seu criador.

O que vimos nos primeiros filmes era sádico, mas havia certas restrições monetárias, e alguns limites não podiam ser cruzados. Com essa nova produção, embora ainda de baixo custo (um milhão e tantos centos mil reais), as possibilidades se multiplicaram junto do orçamento (o filme mais caro do mestre tinha custado RS$ 120 mil), criando um verdadeiro banho de sangue – uma expressão um tanto literal. E não espere algo no nível bundão de “O Albergue” (achaste forte? Falta cinema de verdade em tua vida), aqui a coisa é séria. Marins entende como poucos que o Zé é um homem de sadismo infinito, imensurável, e instrumentos quaisquer como serras, furadeiras e machados são coisa pouca. A tortura aqui chega a níveis insuportáveis, finalmente alcança o que todas as fitas caça-níqueis, auto-denominadas “torture-porn”, buscam e raramente conseguem.

“Encarnação do Demônio” é mais que “o fim da trilogia de Zé do Caixão”. É cinema dos mais incômodos, é a prova cabal da força que o cinema brasileiro tem, e não só no gênero horror – embora este seja tão bem defendido que só na França, em 2003, com “Haute Tension”, um exercício de sadismo similar foi visto. É impossível ficar indiferente às torturas que o coveiro aplica em suas vítimas, mesmo quando estas aparecem sem nenhuma apresentação. Os sofrimentos vistos no filme são como a cena das aranhas em “Esta Noite Encarnarei…”, só que (do mesmo jeito que o filme de 67 fez com o de 64) vão além. A referência é clara na cena em que uma mulher tem sua cabeça enfiada num latão repleto de baratas. Não há efeitos digitais ou bichinhos de mentira, é tudo real – e se nos filmes anteriores, era por restrições tecnológicas e orçamentárias, em “Encarnação”, é por pura paixão ao cinema bem-feito.

E é aí que está a inquebrantável fibra dessa produção. Podiam muito bem preservar a integridade moral das atrizes com bichinhos de CGI, mas Marins provavelmente não aceitou a idéia. Se foi feito 40 anos atrás, por que hoje não? Um assistentezinho que se diz “diretor de horror” nunca se perguntou algo similar, simplesmente por não ter a experiência, a bagagem do mestre. Parece crueldade fazer uma pessoa se dignar a tal situação asquerosa, mas, se há gente disposta a fazê-lo, não existe lei que impeça um cineasta de cumprir suas metas artísticas. Livre arbítrio, gente. Mojica não forçou ninguém, posso garantir, não com uma equipe de filmagem inteira ao redor. No entanto, colocar aranhas no corpo de uma mulher é diferente de pegar sua cabeça e, deliberadamente, levá-la de encontro aos seres asquerosos.

E se o filme se atém a suas raízes em método e mentalidade, o fato de ambos extrapolarem os limites, mais uma vez, é digno de aplausos. Um diretor que sabe o que quer é essencial para quebrar barreiras, e imaginar que Marins encontrou pessoas prontas para costurar suas bocas com agulha e fio reais e sem anestesia (!) e serem suspensas por ganchos presos à pele (!!!) mostram um artista que nem precisa se valer da magia do cinema para alcançar suas ambições. O mundo real está cheio de pessoas para quem limites são desconhecidos, e há um tributo mútuo entre essas pessoas e o cineasta. É sádico? Pode ser. Mas é o livre-arbítrio. É o uso de uma metáfora da vida para desenhar o personagem: Zé do Caixão acredita que superstições e crenças nos cegam à verdade, portanto, seus métodos de fazer cinema são calcados na verdade. Por isso nem preciso ter como fato que, na cena do porco, a carcaça é real. José já ganhou respeito a esse ponto, já que uma seita de seguidores do homem soa tão crível quanto uma atriz disposta a ter sua cara esfregada em milhares de baratas.

Essa mistura de tradição com inovação permeia o filme todo (algo comprovado pelas numerosas referências aos filmes anteriores), com o folclórico Zé tendo as mesmas alucinações terríveis com suas vítimas e com lugares aterrorizantes (incrível como a cena do purgatório causa aflição, mais até que o inferno gelado), ao passo que outros personagens ganham uma importância que coadjuvantes não tinham nas fitas anteriores. Em especial, há a figura do fanático padre (vivido com desnecessário exagero por Milhem Cortaz), cujas ações definem o filme por inteiro – aqui não é retratada a vitória da religião, e sim a periculosidade do fanatismo. Brilhante. Alguns policiais também aparecem para urbanizar a história, e funcionam como amostra do desprezo de Zé pelas autoridades. Sua busca pela mulher perfeita não conhece barreiras no mundo humano e em nenhum outro.

Encarnando o personagem com a necessária – e inevitável – placidez de velhice, Marins encontra um Zé bem menos físico que o que conhecemos, mas ainda sim, sua figura, que poderia soar ridícula andando pra lá e pra cá na capital paulista, impõe respeito com o tempo. A entonação desconjuntada de suas frases é uma mistura de loucura e indiferença às convenções de qualquer tipo. E, mesmo com seus defeitos – poucos dos quais são furos de roteiro ou situações mal-explicadas, já que estes são intencionais –, o roteiro acerta em cheio ao se esquivar de lugares-comuns do terror. Tente associar Zé do Caixão a qualquer serial killer comum do cinema, e veja que apenas Hannibal Lecter e John Doe, de “Seven”, merecem a comparação, os outros são apenas máquinas de matar. A mente sádica do Zé não se preocupa com a morte, e sim com o que acontecerá no antes, e, no tocante a seu próprio fim, no depois. A eternidade. A continuidade do sangue.

José Mojica Marins conseguiu. “Encarnação do Demônio” é a prova. Não só em termos de ficção, o filme é uma realização a que o cineasta há muito almejava. Um orçamento mais polpudo, liberdade artística total, e o ciclo do personagem completo. Pois aí que está a genialidade desse clássico absoluto do horror moderno (o que faz a bela fotografia tornar-se um mero detalhe e defeitos como a edição abrupta se tornarem ínfimos): é uma metáfora perfeita da trajetória de Marins como artista. Zé morre, mas deixa sua prole para uma nova geração viver em seu lugar. É o que o diretor alcança: com o desejo obsessivo finalmente cumprido (o filho para continuar a linhagem/um filme autoral feito com mais liberdade), as ambições se esvaem. Mojica parecia prever o fracasso de bilheteria que seu filme seria, pois é isso que a morte do personagem representa, o trabalho cumprido, a sensação de que a semente está plantada para o futuro, e que o Zé do Caixão não é mais necessário como corpo físico. O legado do cineasta para o cinema brasileiro e de horror é inegável, e lá está, nos cinemas, a biografia metafórica de toda essa trajetória penosa para completar o sonho – vale lembrar que tanto Zé quanto José tiveram de esperar 40 amargos anos de ostracismo para ver a conclusão de suas buscas. Essa brilhante mensagem é o canto do cisne do mestre do horror brasileiro, o lamento que, em seu ápice, alcança a nota desejada pela vida inteira, e depois se cala, certa de que empreendeu uma lendária jornada e a concluiu do modo que sempre mereceu. “Encarnação do Demônio” é o filme que Marins, que Zé e os fãs merecem. É o filme de uma vida.

Por: Pedro De Biasi

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Esta Noite Encarnarei no teu Cadáver

Agosto 20, 2008 at 8:24 am (Uncategorized)

****

Se “À Meia-Noite Levarei sua Alma” é um clássico transgressor e um terror de primeira, então o que é “Esta Noite Encarnarei no teu Cadáver”? Depende. Não dá pra falar da continuação do primeiro filme de Zé do Caixão sem separá-lo em duas partes. A primeira é um exercício de sadismo que alcança níveis ainda mais exacerbados que seu predecessor. A outra, marcada pelo fim da cena filmada em cores, e bem mais curta, não ousa tanto em termos de violência e terror (limitando-se à sutilmente sádica música que ele toca), embora não meça esforços para aprofundar a mitologia do personagem e colocá-lo em situações extremas. Mas a sensação dessa segunda parte é a de que ficou faltando algo, já que o filme anterior conseguiu misturar a apresentação da mitologia, violência gráfica e monólogos fantásticos – algo que também faz falta, já que não são muitos nem tão memoráveis.

Por outro lado, o filme começa muito bem, com Zé proferindo suas frases de efeito ao voltar para a cidade, curado do ataque das almas penadas. Ele continua acreditando que tudo está em sua imaginação, os delírios macabros, as aparições espectrais, os mortos vingativos, e não dá pra saber se ele está certo. Até o fim, a dúvida permanece, quando Zé, mais uma vez, chega à beira do precipício, empurrado por um mundo de crendices e superstições. “Esta Noite…” se aprofunda na idéia de que Zé é um homem de inteligência superior, que, como a maioria dos gênios, é visto com ódio pela massa ignorante. E, mais uma vez, por ele ser quase único no mundo, o peso da sociedade o sufoca, ele é um único homem enfrentando não Deus, nem o Diabo, ou almas penadas, mas uma turba gigantesca de crentes.

Dessa vez, o roteiro é centrado nos esforços de Zé em ter um filho (curiosamente, ele exalta as crianças e vê nelas potencial para pessoas superiores, potencial esse frustrado pelos ensinamentos religiosos) e em seu combate contra a sociedade. Ele ainda assusta a todos, tanto com sua inteligência superior quanto com sua presença macabra, e faz jus a sua fama de homem maldito. Os crimes que ele comete são assustadores, embora não sejam tão chocantes quanto os do primeiro filme. A cena do filme, dessa vez, é certamente a das aranhas. Elevando o próprio sadismo a um nível estratosférico, ele não deixa uma aranha percorrer o corpo de uma mulher. Ele faz dezenas de aracnídeos subirem na cama de seis mulheres adormecidas. E isso aconteceu. Não é o caso em que precisa entrar no filme para se sentir aflito: saber que seis mulheres realmente tiveram que passar por aquilo é agoniante ao extremo, além de mostrar cojones que nenhum Eli Roth moderno tem.

Claro que a cena filmada em cores, que se inicia com uma macabra aparição e continua numa descida a um inferno onde neva e as pessoas estão congeladas, também é digna de menção. É um exercício surreal que pode deixar o baixo orçamento explícito, mas ao menos não poupa longas cenas de tortura. Por sinal, essa vontade de quebrar conceitos (o inferno gelado foi descrito por Dante, mas colocá-lo em filme é outra história), também representado pelas demonstrações de fraqueza do “invencível” anti-herói, só não é mais interessante que as homenagens ao estilo de Roger Corman, com direito a masmorras, buracos na parede para espionar hóspedes, mecanismos secretos e até um ajudante corcunda. Se “Esta Noite Encarnarei no teu Cadáver” não tem tanta força quanto a primeira parte da trilogia, ao menos é uma ótima continuação da mitologia do personagem.

Por: Pedro De Biasi

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O Cemitério Maldito

Agosto 17, 2008 at 9:17 pm (Uncategorized)

****

Clássico trash? Melhor pensar de novo. Se alguma coisa é trash nessa pérola da década de 80, melhor safra de terror segundo a crítica especializada, são os parcos efeitos visuais e a “atuação” do ator principal, Dale Midkiff, incapaz de se sobressair em qualquer cena que não exija total torpor – obviamente, seus melhores momentos se dão entre uma morte e a decisão que levará ao clímax. O som do filme também acaba falhando em alguns momentos, mas nada sério.

Baseado no incrível livro de Stephen King, e adaptado por suas próprias mãos, o roteiro do filme dá um banho em produções de terror comuns, pois não aposta só no terror sobrenatural ou no sangue – ambos os elementos são usados com moderação louvável -, e sim por apostar no muito mais palpável terror familiar. Assim como no livro, o filme é maligno. Ele entra em terrenos tidos como proibidos, como o da violência contra crianças e a profanidade de um ente querido. Ver uma pessoa amada transformada em um monstro demoníaco é aquele “algo” que falta aos filmes comuns para causar real pavor. E não pára por aí.

O drama é desenvolvido com todo o cuidado que King dispensou ao escrever seu livro, e não são poucas as partes emocionantes que pontuam as cenas macabras. Confesso que chorei em dois momentos, ambos envolvendo o pequeno Gage (Miko Hughes, ótimo por evocar todas as sensações que o garoto deve evocar), pois a família Creed é um daqueles raros casos de personagens que envolvem o espectador, fazendo com que este se preocupe com o destino deles. Se não bastasse a bela profundidade dos personagens, as cenas de causar medo causam medo mesmo.

A primeira aparição de Church, por exemplo, é previsível, mas me pegou totalmente desprevinido por ser visualmente aterradora. No final, o suspense se torna bem mais intenso, assim como a violência, resultando em momentos alternados de tensão psicológica e gráfica (a morte mostrada nesse ato é bastante aflitiva). E a última cena, em si, deixa uma impressão forte por ser tanto macabra e nojenta quanto, em partes, lírica.

Outra qualidade brilhante do roteiro é usar o personagem de Victor Pascow, um fantasma horrivelmente desfigurado (amostra da ótima maquiagem do filme), como o ajudante que tenta fazer tudo dar certo. Graças a isso, somos obrigados a deixar de encará-lo com repugnância, pois, numa perfeita inversão de regras (que influenciou até O Sexto Sentido), os “revividos” são visualmente menos grotescos que o espírito bondoso – e a diretora Mary Lambert opta bem em mostrar Pascow como um personagem cada vez mais simpático. Por outro lado, a caracterização de Zelda, a irmã deformada de Rachel, é arrepiante, e encontra no roteiro a motivação necessária para figurar entre as cenas assustadoras.

Embora às vezes seja um pouco apressada, com cenas breves demais para evocar a emoção necessária, Mary faz um trabalho intrigante, especialmente por tratar de assuntos tão fortes com o misto perfeito de drama e terror – ela nunca erra a mão no clima. Como uma das ótimas exceções ao defeito da pressa, a cena-chave do filme é apresentada com calma, numa tensão insuportável, misturando o terror e o drama com um dos resultados mais poderosos que já vi. Com atuações inspiradas de Fred Gwynne como Jud e de Denise Crosby como Rachel, a fita impressiona por se distanciar muito do trash e apostar num terror emocional, coisa rara nos filmes tradicionais do gênero. Uma pequena gema, bruta, mas valiosa.

P.S.: Embora a personagem de Missy pareça desnecessária, ela mostra, com eficiência, como a família Creed (sim, nome sugestivo) lida com a sempre presente morte.

Por: Pedro De Biasi

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À Meia-noite Levarei a sua Alma

Agosto 16, 2008 at 8:40 am (Uncategorized)

Primeiro filme de José Mojica Martins que tive o prazer (nada culpado) de ver. Uma obra-prima, sem mais – uma obra-prima do trash, fique claro.

Se “Fome Animal” foi concebido com o filme mais sangrento de sua época (e duvido que tenha sido equiparado até hoje), “À Meia-noite” foi concebido para ser o filme mais ousado de sua época, e, se foi equiparado desde então, há de se entender que a década era de 60, e poucos ou nenhum filme alcançaram extremos de forma tão displicente e intrépida. “O Exorcista”? 9 anos separam o filme de Friedkin e o de Mojica, e é literalmente ridículo achar que o primeiro não foi feito com o “aval”, com a liberação que Mojica proporcionou ao cinema de horror. Quem se choca com as blasfêmias proferidas por Reagan não conseguiu descascar a película “terrir” dos filmes do mestre brazuca.

Claro que um filme trash, de equipe reduzida, baixíssimo orçamento e numa época em que “super-produções” como “Olga” nem passavam pela cabeça dos produtores brasileiros, esbarra na comédia a todo momento. A começar com o roteiro. Mas, espera aí. Quem disse que um roteiro bom precisa de dinheiro? Pois é, não precisa, precisa de uma idéia boa e bem desenvolvida – e não só pessoas com 100 mil reais de cursos de roteiro no currículo são capazes disso. Não, o roteiro desse filme não é ruim sem querer. É a escolha dele. A história se resume a andanças aleatórias de Zé do Caixão, o agente funerário de uma pequena cidade do interior, e os diálogos são apenas frases de efeito baseadas na filosofia bem simplista do Zé. Por isso mesmo é incrível que haja monólogos geniais no filme (o “poema” inicial, a mensagem que a bruxa dápara os espectadores, a cena em que Zé ataca as crenças de Antônio e defende as suas), comprovando que boas idéias simplesmente nascem.

Claro, o roteiro não tem absolutamente nenhuma linha narrativa definida, as coisas acontecem de forma totalmente inorgânica, como se fossem apenas cenas idealizadas e unidas sem esforço. E aí está o charme do filme. Ele NUNCA opta por uma narrativa convencional, opta pela narrativa tosca mesmo, uma série de acontecimentos sem ligação e nexo em que Zé sai matando quem lhe dá na telha. E é aí que o filme se transforma. Se as repetidas cenas em que ele sai do bar e entoa frases de efeito hilariamente macabras são a parte “rir”, as cenas de violência passam longe disso.

Impossível escolher a morte mais memorável. O monólogo sobre a “força” da descrença do Zé culmina numa cena de violência em off, e não para por aí, continua numa habilíssima cena de afogamento. A cena da aranha, filmada sem dublês e com um bicho real (Zé certamente achou a cena de “Dr. No” por demais covarde, tanto que é quase uma referência) é de arrepiar, merece entrar para a história. A briga no bar (não aquela em que Zé decepa os dedos de um canastrão, embora essa seja ótima) é de uma intensidade incrível, com câmeras inspiradas que só a falta de preocupação com produtores, estúdios, expectativas pode criar e uma brutalidade nada gráfica, porém palpável. O ataque ao médico também impressiona pela maquiagem simples e eficiente, e por ser pura e simplesmente aflitiva. Hitchcock que o diga: ele conseguiu mostrar um homem de olhos furados em 1963, mas Zé mostrou um homem FURANDO os olhos de outro em 64.

Mas minha imagem preferida ainda é o ataque a Terezinha – que nem é uma morte. Usando o tosco efeito dos olhos injetados, ficamos prontos para mais uma cena de violência no nível das outras, mas o que nos espera é algo de outro nível. Começa com um espancamento absolutamente chocante, sem a menor intenção de fazer rir. Zé possui a mulher enquanto esta está desacordada pelos tapas e socos (sim, SOCOS), inclusive beijando-a com sangue na boca. Logo depois, na cena mais impressionante do longa, Terezinha, que segurava um pássaro que o homem lhe dera, esmaga o pobre animal por estar sendo violada por um homem tão horrendo. Sem dúvida uma das cenas mais macabras e líricas que já vi num filme de terror, e a que mais me impactou nesse ousado filme.

É engraçado ver como Zé do Caixão é apresentado como um serial killer comum, não pelas motivações, mas pelos atos, mesmo. Ele simplesmente mata para se satisfazer. Embora Mojica se exceda muito nas caretas a todo momento, sua interpretação é eficientíssima, usando de uma dramaticidade quase expressionista (há até um belo jogo de sombras que remete a essa vertente do cinema alemão) e imprimindo ao personagem um caráter e um jeito distintos, criando, sem esforço, um vilão icônico e memorável. Até o figurino, simplérrimo, faz parte dessa caracterização lendária, de um modo que ficou gravado na memória de qualquer brasileiro que se preze. A voz inconfundível, a gargalhada (embora a da bruxa seja tão inesquecível quanto a do Zé), os apaixonados monólogos (o que é entoado num cemitério e o desafio a Deus são maravilhosos) e a fortíssima postura de blasfemo são o que fazem de Zé uma imagem inesquecível no cinema brasileiro e no cinema de horror mundial.

Claro que continua sendo um filme trash, então, há efeitos toscos como o do espírito aparecendo com purpurina (sim) em volta do corpo para indicar a natureza sobrenatural e a montagem tosquíssima que mostra a procissão dos mortos – e, para completar, a coruja que aparece nessa cena é mais sofrível que tudo. Mas isso, embora faça rir, adiciona o charme do baixo orçamento à produção, sem apagar as boas idéias do roteiro – pelo contrário, faz jus à linha narrativa tosca. E a melhor idéia do roteiro é subjugar o vilão às manifestações sobrenaturais que ele tanto nega existir. E isso sem resvalar no mero moralismo cristão.

Não. Zé é subjugado ou porque ficou louco, sufocado pelo mundo cheio de crenças que o cerca, ou porque o mundo de espíritos que ele sempre ignorou existe de fato. O único fato, porém, é que a cena final é fortíssima (e não é que a maquiagem do filme, ao menos em preto-e-branco, funciona?), tanto por mostrar a cara deformada do Zé como por trucidar, sem nenhuma piedade, o anti-herói do filme. A ousadia só pára quando o filme acaba, pois é nesse momento que o lendário personagem se mostra humano e mortal. E isso torna sua subida indiscutível ao patamar de ícone do Cinema ainda mais impressionante.

*****

Por: Pedro De Biasi

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Nome Próprio – 2008 (Brasil)

Agosto 14, 2008 at 12:17 pm (Uncategorized)

Não sei se todo mundo sabe, mas anseio em ser escritor. Meu objetivo de vida, meu sonho, minha única perspectiva, blá blá blá. Camila (Leandra Leal) também. Ela vive em constante crise, e os posts em seu blog esmiúçam essas depressões diárias. O máximo que ela faz para chegar perto de seu sonho, porém, é criar a pasta “livro” no computador, pois nunca se preocupa em produzir merda alguma. O momento quebra-gelo do filme é quando ela vira, séria, para o amigo com o qual está hospedada (o ex-namorado a expulsou de casa por ela tê-lo traído), e diz que não quer um emprego, que precisa se focar no livro. E por que “momento quebra-gelo”? Porque, antes dessa cena, a imbecilidade e a falta de maturidade fenomenais que a personagem apresenta só fazem irritar. A cena citada é o momento em que o roteiro diz “ok, era brincadeira, não estamos defendendo a posição de Camila”.

E isso nem deve contar como qualidade, já que a personagem é tão patética que qualquer tipo de defesa da índole de tamanha anta tornaria o filme tão imaturo quanto ela – e, na minha opinião, nos 45 do segundo tempo, o roteiro dá uma derrapada nessa direção. O filme apresenta Camila de um jeito nu e cru (não é à toa que Leal, pateticamente perfeita no papel, apareça pelada dezenas de vezes), mostra sua personalidade nada polida e de forma seca, sem nenhum tipo de ponderação sobre seu comportamento. As cenas cômicas (a citada é a primeira de todas) não são tão explicitamente cômicas, a reação do espectador é a de ouvir um absurdo falado por um amigo de moral duvidosa, ou ver esse mesmo amigo (que você adora, mas que é imaturo até a espinha) depois de um porre fazendo coisas de bêbado. Não rimos porque o filme faz a comédia, rimos porque é a reação mais cabível: o famoso “rir para não chorar”. Ou melhor, “rir por não poder dar uns tapas na cara da Camila”.

É louvável que o filme centre sua história num personagem tão desprezível e digno de pena, e, ainda mais, que deixe o espectador decidir sua opinião quanto às numerosas “aventuras” (no sentido pejorativo) da protagonista – e num país cheio de fãs da VJ Marymoon, não se surpreende se muita gente achar “comovente” ou “inspiradora” a trajetória de Camila. O fato é que ela faz uma merda atrás da outra. Entende as coisas erradas, lida com os sentimentos de forma errada, diz coisas erradas, e, principalmente, faz coisas erradas. Nesse ponto, desgostei do roteiro de novo: há um claro exagero nas doideiras perpetradas por nossa “anti-anti-heroína” (“anti-anti” porque um anti-herói ainda cativa). Por exemplo, a cena do sexo na praia é forçada, não só mostra a imaturidade a que, a essa altura, já nos acostumamos, mas também parece uma tentativa de levar à estratosfera o nível das cagadas que Camila consegue fazer. Embora a cena em que ela se joga no mar seja linda, tudo depois sobe num crescendo de absurdo que cai no farsesco.

E embora essa incongruência se repita algumas vezes, não dá pra vê-la como opção consciente do roteiro, já que este adota uma visão realista dos acontecimentos. A direção de Mendes, por outro lado, acerta na mosca ao usar uma enérgica câmera na mão e o formato digital para criar uma visão mais intimista, e equilibra perfeitamente floreios visuais e crueza. A idéia de mostrar as palavras que Camila tecla no fundo é óbvia, mas mostra como ela realmente acredita que a vidinha vazia que vive é digna de uma história. Não é somente o digitar de letras na tela que mostra isso, e sim o uso de certos planos e composições de apuro estético explícito. O diretor quis mostrar que Camila, e só ela, via o mundo desse jeito, o que fica claro pela diferença brutal já da primeira cena: ela sai de uma filmagem violenta e caótica e corta para uma composição cuidadosa e apurada. É Camila vendo sua vida como uma bela e melancólica ficção – sendo que na verdade é a própria vida dando os tapas na cara que ela merece.

Embora possua cenas e escolhas que não fazem juz à proposta poderosa e bem definida pela qual o roteiro opta, o filme é de uma força artística interessante, e, vá lá, os últimos poucos minutos e projeção, com uma leve tendência a glamurizar as atitudes irritantes da protagonista, não são exatamente incorretas. Afinal, Clarah Averbuck, autora de um blog em que o filme é levemente inspirado, terminou escrevendo dois livros, “Máquina de Pinball” e “Vida de Gato” – dos quais “Nome Próprio” também tira inspiração. Um sucesso, relativamente. Embora seja perigosamente ambíguo, por esbarrar num tipo de felicitação pelo “sucesso” de Camila, o final pelo menos indica, sutilmente, que o livro foi publicado. Se o livro é bom ou não (se levarmos em conta o que o filme apresenta sobre a personagem, não), o filme não se digna a julgar. É o papel do espectador. Mas, encaremos, se a idéia fosse elogiar o trabalho da blogueira, seja Clarah ou Camila, o tom do longa seria totalmente diferente. E se fosse, a direção seria um problema: e mesmo assim a protagonista continuaria sendo uma mentecapta.

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Por: Pedro De Biasi

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007 contra o Satânico Dr. No

Agosto 9, 2008 at 1:49 pm (Uncategorized)

Resolvi ver todos os filmes de Bond, a partir do primeiro, em ordem cronológica.

Incrível como essa estréia de 62 supera Um Novo Dia Para Morrer (ok, exemplo extremo, mas é válido) em todos os quesitos. A atuação de Brosnan come muita poeira da de Sean Connery, sem dúvida um Bond merecedor de toda sua celebração – admito que me arrepiei ao ouvir o primeiro “Bond. James Bond.” da história. Ele consegue mostrar o charme do espião, a ameaça britanicamente sutil que ele representa e a ousadia perante adversários. Várias vezes, porém, fica claro que ele corre risco de vida, e ele não se mostra perfeito, já que as coisas não vão sempre como planejado. O roteiro tem uma levada intrigante, apostando em vários personagens para tornar o mistério mais complexo.

Por sinal, o uso da ação é outro exemplo de como fazer um bom 007. A adrenalina é contidíssima, pode-se até dizer pouca, pois os embates mais poderosos do longa ocorrem por palavras, como o travado com a fotógrafa e a memorável conversa à mesa de No – nessa cena, num toque de brilhante ironia, as ações de violência explícita se mostram infrutíferas, deixando claro que 007 é mais que punhos. Por outro lado, as pancadarias têm uma intensidade muito maior, especialmente por sua brevidade. Os poucos golpes que Bond dá no motorista falso são mais impressionantes que 10 minutos de artes marciais sortidas, como costumamos ver em filmes modernos, pois mostram a eficiência do espião sem que para isso o faça um super-homem. É aquela sutileza característica, que Bond perdeu ao longo dos anos.

A personalidade nada louvável do agente também é uma marca registrada. O cinismo com que ele trata a personagem de Miss Taro é brilhante – o humor negro também rola solto, especialmente na cena em que um carro despenca ladeira abaixo. Ok, às vezes as mulheres ficam um pouco eriçadas DEMAIS, e às vezes as coisas vêm mastigadinhas demais no roteiro, mas nada que tire o charme inegável de Sean e do personagem. A inesquecível trilha sonora e os cenários incríveis são a cereja no topo.
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Por: Pedro De Biasi

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O Escafandro e a Borboleta (Le Scaphandre et le Papillon)

Agosto 2, 2008 at 10:17 am (Uncategorized)

Fica difícil do filme em si, o que sobram são as emoções. Emocionante é pouco. Gostei principalmente por desviar da lição de vida clichê, como em à Procura da Felicidade, pois o personagem fraqueja em diversos momentos, e nunca de forma exagerada. Os símbolos que o filme usa (escafandro, borboleta, geleiras ruindo, o pedestal no meio do mar) são de uma força e imaginação inegáveis, e a fotografia tem de entrar pro rol de melhores da história do cinema, tamanha a quantidade de informações que ela passa. Ela nos coloca na posição insuportável do protagonista (incluindo sua visão distorcida, no início), usa de enquadramentos que escapam do estético para o inevitável, mostram a imensidão do mundo que ele não pode viver, e, com o tempo, oferece cores e luzes fantasiosas, para mostrar que a imaginação de Bauby toma conta daquele que é seu sentido principal: a visão.

Na direção, Julian Schnabel faz um trabalho impecável, principalmente por incluir, em todos os “diálogos” de Bauby, a cansativa técnica desenvolvida para ele falar, fazendo juz à dificuldade do homem em se comunicar. Por outro lado, quando a desenvoltura é grande, ele trava diálogos “mentais” com sua zelosa companheira como se fosse uam conversa normal – porque, naquele ponto, é. A edição de som, algo importante em cenas como a do barbear (o som da barba sendo raspada é aumentado para mostrar a importância daquilo para Bauby), também se aprofunda no quesito comunicação, pois, em certos momentos, inclui pessoas ditando o alfabeto enquanto frases são formadas, para não ignorar nunca o fato de que Bauby levava muito tempo para dizer algo. Schnabel também mostra excelência em conduzir o filme de forma “irregular”, sem momentos tristes e momentos felizes alternados. Tudo se funde numa sensação única, dada a condição surreal do corpo do protagonista. O uso de tons apagados para a cena do derrame, e a liricidade da cena em que Bauby deixa a imaginação literalmente voar pelo mundo, completam esse trabalho sólido de direção.

Se este não é um filme que funciona como uma simples lição de moral, tampouco ele se resume a um soco no estômago. O personagem atravessa situações desafiadoras, e, se por um lado é emocionante ver a dedicação dele em criar seu livro, em usar o lento sistema de comunicação para fazer piadas para os outros rirem e a vontade de aproveitar sua recém-descoberta imaginação, por outro, vemos como a sobrevivência de Bauby dentro de seu escafandro é penosa para outros, especialmente seu pai e filhos, e como seus devaneios são entrecortados pela dura realidade clínica de seu corpo. Ao fim, a mensagem não se procupa em aparecer límpida, explicada, unilateral em seu tom. É um filme que pode ser visto como depressivo ou como uma exaltação à vida. A cena final, das geleiras se recompondo, é ambígüa: tanto podem representar a paz que a morte deu a Bauby, como podem mostrar que o livro que ele publicou compensou toda a ruína que sua vida se tornou. Ignorar uma dessas interepretações (o filme todo traz essa visão ambivalente das coisas) diminuiria a carga e o valor artístico da obra, mas, subjetivamente, podemos escolher uma delas. Mas, se Bauby conseguiu conviver com ambas, por que não podemos fazer o mesmo.

Um filme para ser revisto, se você for capaz.

***** (??? cotação? er… só por convenção)

Por: Pedro De Biasi

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