Quanto Mais Quente Melhor
****¹/² de *****
Wilder é o cara. Sem mais. Fazer o cinema que ele fazia naquela época, e ainda sob as saias de grandes estúdios (que permitem, por exemplo, uma excelente cena de perseguição, uma produção cuidadosa e outras regalias orçamentárias), é um feito de gênio, e nada menos. O filme é de uma sexualidade tão brilhantemente disfarçada que não se torna só mais engraçado, e sim mais inteligente. O detalhe do pé levantando numa posição sugestiva, o simbolismo irreverente das rodas do trem, a “parada de emergência”… embora Wilder tente chamar atenção para as referências mais explícitas dos diálogos, a genialidade dessas sutilezas é um dos pontos altos do filme.
No entanto, há qualidades de sobra nessa deliciosa comédia, como os maravilhosos trocadilhos dos impagáveis diálogos e o perfeito timing cômico do filme inteiro. Jack Lemmon e Tony Curtis simplesmente arrasam, assumindo suas várias personalidades com afinco e senso de humor incríveis – mesmo havendo uma interessante análise das fachadas que cada um usa, a comédia nunca perde sua força. Ok, há um certo exagero: algumas falas e uma ocasional tendência para uma grotesca caricatura tornam certos momentos menos inspirados que outros. Mesmo assim, há tantas cenas hilárias que mesmo os excessos não chegam a comprometer muito. O mesmo pode ser dito sobre as convenções usadas no filme, que às vezes criam uma indesejada previsibilidade, mas nada que ofusque o brilho do filme. Brilho este reiterado pela presença luminosa, carismática e sensual de Marilyn Monroe, e pela direção firme de Wilder, que consegue dar unidade para o que poderia ter sido um filme bastante desconjuntado, já que mistura enganação, perseguição, tensão, comédia, romance e mais vários elementos no roteiro. Arrematando, a edição é primorosa (a alternância entre os “encontros” dos protagonistas é engraçadíssima), a trilha, perfeita, e o final, irreverentemente ousado. Um paradoxo? Talvez, mas Wilder deve ser um gênio, porque funcionou, faça a sentença sentido ou não.
Por: Pedro De Biasi