Noitão HSBC

Setembro 7, 2008 at 2:34 pm (Uncategorized)

Êta coisinha bacana que é o Noitão, meu deus. 3 filmes pelo preço de 1 e meio, da meia-noite até as 6 e um pseudo-pseudo-lanche de manhã de brinde. Mesmo quando os filmes são ruins, vale a pena pela experiência. E esse foi talvez o melhor dos 3 que já fui.

Ensaio sobre a Cegueira (***** de *****)

Difícil dispensar algumas palavras pra um filme que usa tão bem a linguagem cinematográfica quanto o livro de Saramago fazia com as palavras. Resumindo, é uma obra magnífica, contando com atuações homogeneamente sublimes do elenco (salvo Julianne Moore, que transcende tudo), cenas de uma carga emocional fortíssima, um roteiro que não se incomoda em usar de um ritmo diferente de narrativa e uma direção tão segura e primorosa que fica difícil desgrudar os olhos da tela. Enfim, uma obra-prima.

O Closet (Le Placard) (**** de *****)

Filminho francês, tipicamente feel-good, que funciona por vários motivos. Pra começar, é uma comédia de tom correto e fluente, sem aquela montanha-russa de diferentes tipos de piada – aquelas merdas que comédias americanas fazem, da ironia pra escatologia, do sarcasmo pras trapalhadas, e etc. Além do mais, o roteiro consegue, em menos de hora e meia, compreender uma vasta gama de personagens e situações de forma fluida e satisfatória, sem perder nenhuma das ótimas linhas narrativas de vista. Infelizmente, o longa escorrega em uma esquisita repetição, já que as cenas de Belone (Michel Aumont, ótimo) e Guillaume, por exemplo, são sempre encenadas da exata mesma maneira.

Por outro lado, Daniel Auteil, como o protagonista François Pignon, simplesmente arrasa, desde o começo, como um homem fechado ao extremo, passando pelas inúmeras (e hilárias) situações que o personagem tem de enfrentar. O bom e velho Depardieu também está ótimo, num papel bem diferente dos que costumamos vê-lo interpretando, fazendo de suas cenas alguns dos melhores momentos do filme. Graças à rara atenção dada ao roteiro, e ao impecável timing (sem contar o ritmo bastante diferenciado de películas francesas comuns), essa produção se destaca como uma ótima comédia, daquelas que nem o Brasil, nem os EUA conseguem fazer com freqüência. Bem, o final é atabalhoado e quebra o tom do filme, mas é impossível terminar a projeção com uma sensação ruim, pois o filme é muito bem construído e prazeroso. Um ponto final borrado não estraga o período todo.

Love Baby (Comme les autres) (** de *****)

Outro filme francês, outro estilo, e outro nível. Se O Closet foi um passatempo divertidíssimo, infelizmente esse título de 2008 não merece as comparações que estou fazendo. Não há nada de errado no começo da história de Manu (Lambert Wilson), em sua infindável busca por um filho, algo que incomoda profundamente seu parceiro Phillipe (Pascal Elbé). Num acaso do destino (que, de tão brega, merece essa definição brega), Manu bate no carro de Fina (Pilar López de Ayala), e começa uma relação complexa… melhor dizendo, confusa. Assim que o roteiro começa a engatar, ele começa a enganchar momentos tão implausíveis e forçados que cada minuto se torna um esforço para assistir ao filme. O roteiro não sabe se assume Manu como um personagem essencialmente “direto-ao-ponto” ou não, desprovindo de sentido os péssimos diálogos “direto-ao-ponto”. A necessidade de fazer brotar lágrimas da platéia também incomoda, e não do modo sentimental – e não funciona, pois é tudo muito artificial.

Por outro lado, há certas cenas de humor, mas soam tão deslocadas que estragam o já infrutífero tom melancólico imposto à trama – ao menos elas são realmente engraçadas. E, tentando esquecer meu lado gay, vou analisar a trepada do filme (obviamente não gay, mostrando a falta de tato do diretor) com rigor técnico: se ela é bem explorada pela própria opinião do personagem, ela é apenas bucha de canhão pra mais conflitos mornos. O filme todo é recheado desses conflitos mornos e de situações inverossímeis (que tornam a fotografia naturalista um erro brutal), mas o que mais incomoda mesmo é o protagonista. Tratado com uma unidimensionalidade sofrível, ele só sabe pensar em filhos, falar de filhos, fazer planos para quando tiver filhos. Pode até mostrar a obsessão do personagem, mas, por favor, desenvolva-o também! Nesse sentido, o fato de Manu ser um pediatra não soa bem como poderia ter soado: mostra mais um sinal de simplicidade do personagem.

O que é uma pena, pois Wilson faz um esforço louvável para caracterizar Manu, tornando-o livre de caricaturas sem abrir mão de uma sutil, porém visível (e necessária) afetação: o modo como ele se deita, o jeito de andar e o mexer da cabeça, tudo é construído com linda sobriedade. Elbé, por sua vez, tem uma expressão firme e séria, e quase nunca se excede no tom seco de Phillipe. Pilar, por outro lado, acerta com uma personagem agradável, charmosa e bem desenhada pelo roteiro, embora ela não tenha uma divisão coerente de tempo em cena. Como um exemplo da confusão do filme, Anne Brochet, como a amiga de Manu, surge bem, mas é mostrada com uma displicência e uma mistura de toms (cômico, trágico, tragicômico) que reflete bem a película como um todo. Some-se a esse caos uma trilha-de-uma-melodia-só, dramática de dar dó, e todo o ótimo trabalho do elenco vai por água abaixo. Um caso raro de filme francês que irrita por ter conflitos de menos, e, sim, pelo motivo oposto. De boas intenções a França está cheia.
Por: Pedro De Biasi

1 Comentário

  1. Régis disse,

    Ai meus deuses… eu acho que vou ter um troço se não conseguir assistir “Blindness” de uma vez… eu já nem procuro mais material do filme na net, pra não me deixar ainda mais ansioso… te contar viu, morar em cidade do interior é foda… daqui uns 15 meses o filme chega aqui, se chegar…

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