Mostra Internacional de Cinema de São Paulo #5
A Floresta dos Lamentos (***** de *****)
Parece que o cinema alternativo, em si, está subdividido em várias categorias, dependendo da abordagem. Pegue o altamente politizado Jia Zhang-ke, e seus filmes de mensagem e arte fortíssimos, e compare com o filme em questão, de Naomi Kawase, que é uma jornada direta e, de certo modo, simples em direção a um objetivo filosófico, mas sem floreios ou reentrâncias de cunho intelectual(óide) que divirjam da proposta. Digamos, os dois asiáticos são, numa comparação grosseira, similares a Sangue Negro e Na Natureza Selvagem, respectivamente. Enquanto um é uma experiência cinematográfica intensa pela abertura para análise com que o espectador se depara a cada segundo, o segundo é o tipo de filme que convida a um mergulho completo, de cabeça, dentro de uma peregrinação existencial que, o diretor sabiamente entende isso, nenhuma arte consegue transpor pra sua linguagem.
Impedir que o intelecto interfira na história e evitar manifestações artísticas auto-indulgentes é o que dá o diferencial a A Floresta dos Lamentos. Mesmo a filosofia, que aqui só ganha a dimensão e a importância que a tradição japonesa permite, nunca toma o lugar da jornada pessoal dos dois personagens. Filmando quase que somente em planos-seqüência, a diretora Naomi mostra todas as facetas daquela busca, inclusive a de mera andança pela floresta, com planos longos e variados de Machiko e Shigeki atravessando a interminável floresta. Escapando de metáforas fáceis e simbolismos óbvios, a direção é incrivelmente limpa, o que nos obriga a lidar com o drama dos personagens e com a própria questão existencial daquela jornada, dando emoção e força para cenas que, se tratadas de forma distanciada, arruinariam a proposta. O que vemos são duas pessoas andando por uma floresta de essência mística, e é esse misticismo que compensa a aparente ausência intelectual. É o mágico que guia os personagens, o mágico que os causa sensações e comanda seus pensamentos, e a passagem dessa magia para o espectador é acachapante.
É como se algo além, uma coisa desconhecida estivesse guiando os dois para a libertação final, e a narrativa é capaz de passar essa complexa noção de objetividade disparatada de um jeito que faz parecer simples. Não parece simples, por outro lado, o trabalho dos atores, pois Shigeki Uda e Machiko Ono (sim, os atores e os protagonistas têm o mesmo nome) enfrentam não só o desafio físico e emocional de uma jornada estafante, mas também longos planos sem cortes que, ao longo da projeção, vão se tornando mais e mais desafiadores. Encarnar um senhor alternadamente senil e cheio de energia não é difícil, assim como não o é encarnar a relação complicada de Machiko com o velho: o que realmente exige dos intérpretes é a ausência de cortes em cenas-chave, o que requer uma entrega total às emoções dos personagens. E mesmo com a câmera na mão e um operador que precisa correr ou saltar para acompanhar os protagonistas, quase não há distanciamento: as atuações tocantes e a realidade pulsante da floresta em volta nos fazem crer de forma inabalável na sinceridade daquela jornada.
E o resultado é mais que eficiente. Não só embarcamos na vida dos personagens através de seus lutos e feridas, como mergulhamos numa história de tons sobrenaturais que qualquer outro filme teria evidenciado demais – talvez o pecado de uma certa cena. O místico está entrelaçado com as andanças, com os personagens, com a floresta, com a narrativa, com a narração, numa composição que se torna tão orgânica que a experiência excede as óbvias e formais metáforas, metonímias, simbologias, e etc. Como o Fim do Luto (“Mo Agari”, em japonês), A Floresta dos Lamentos é uma experiência pela qual devemos passar e que nos engrandece para sempre. É mais que Arte, é Vida.
“Não há regras formais, sabe?“