Mostra Internacional de Cinema de São Paulo #8

Outubro 24, 2008 at 8:44 pm (Uncategorized)

Homem de Vento (** de *****)

Tava até demorando pra eu ver um filme desconhecido, sem buzz de Oscar nem prêmios, que escolhi por seu tema, e não me agradou. A produção russa do diretor Khuat Akhmetov é livremente baseada numa obra do Nobel Gabriel Garcia Marquez, e conta a história de um pequeno vilarejo onde um homem alado cai. Fantasia? Pequena sociedade? Possível alegoria? Influência num modo de vida tradicional? O que me chamou a atenção foi a sinopse, e as possibilidades de seu tema. E, claro, se eu não gostei de um filme que me atraiu, o motivo foi decepção. Nenhum dos potenciais da premissa é explorado de forma satisfatória, seja o tom da história (mutante e desconjuntado) ou os desdobramentos do enredo. Para começar, o elenco não sabe o que quer. Há piadas divertidas e atores com bom timing, mas os quatro personagens principais (pai, mãe, filho e homem-alado), igualmente ótimos, apostam numa dramaticidade totalmente oposta. Mas são eles que estão de acordo com o roteiro, e tudo que envolve humor soa deslocado numa história de crendices, seres sobrenaturais e acontecimentos trágicos – algo que acaba ganhando o foco na parte final do filme, com resultados, em sua maioria, artificiais.

E se a sociedade não é mostrada do jeito tradicional, com direito a personagens, diálogos e situações escalafobéticos, isso não era desculpa para usar tão mal o personagem-título. Tudo que vemos ele causar são reações automáticas, imediatistas e simplórias nos personagens da trama, sempre causando tragédia. Sim, é uma bela idéia que apenas o sofrimento do “anjo” seja capaz de fazer algum bem, como se ele fosse um arauto de má sorte cuja dor cura, mas ele sofre um bocado ao longo do filme, e só num momento-chave seu sangue resolve alguma coisa. Bem, voltando ao tema da sociedade inusitada, a própria escolha de um tom cômico e esdrúxulo se revela um erro - não é ineficiente em sua intenção de fazer rir, só que não passa de um capricho do diretor. Talvez fosse medo de fazer um filme pesado demais. Mas se fosse isso, 1-) Os momentos cômicos não estariam só na primeira metade do filme; e 2-) Se tem algo que o filme não causa, é incômodo. Pela confusão de elementos e tons, e por uma direção frouxa do lado dramático, as emoções não são passadas e só o que vemos é uma coleção de piadas seguida de uma coleção de tragédias.

O que é uma pena, pois ali estava uma ótima história para ser desenvolvida. O que ganha-se ao ver esse filme? Uma atuação inspirada de Igor Yasulovich, como o “anjo”, criando uma figura esperadamente enigmática e inesperadamente vulnerável, atores bons também para a família principal (especialmente a expressiva Ayana Esmagambetov – que nome hein?) e adequados semi-comediantes que funcionam para causar humor. O uso de criaturas e costumes floclóricos também é interessante, com a forte figura do cachorro e a lúgubre presença do Madar – embora seja um elemento igualmente subaproveitado do roteiro. Uma pena que as idéias sobrenaturais fiquem vagas demais, tirando força do que poderia ter sido uma bela fantasia. Uma cena engloba o potencial do filme: quando o protagonista mata o suposto Madar, descobre-se que era na verdade um homem religioso de importante posição… e o filme escolhe, entre todas as conseqüências que tal ato poderia causar, NENHUMA. Nada dramaturgicamente decente ocorre. São como os toscos movimentos de câmera de Akhmetov: um filme com boas intenções, mas de resultados aleatórios, irregulares e sem sentido. Saramago é um Nobel mais feliz.

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