Mostra Internacional de Cinema de São Paulo #10
Three Monkeys (****¹/² de *****)
Repitam comigo: misè en scene. É “direção” em francês, o nome do prêmio que Nuri Bilge Ceylan recebeu no último Festival de Cannes. Um prêmio merecidíssimo, em todos os aspectos. O que se sobressai em “Three Monkeys” é seu comando cênico, e fica claro que o filme tem a intenção de exercitar a autoralidade através da estrutura do roteiro. Os acontecimentos são de uma banalidade considerável, e são espaçados, contam uma história que poderia ser contada em metade do tempo de duração. E, no que é talvez um dos casos mais notáveis do cinema recente, o diretor adiciona mais uma profundidade que o roteiro não é capaz de dar – o que, obviamente, não é um defeito, pois a base do filme não é o texto. O trabalho dos roteiristas é mais conceitual, pois cria uma trama intrigante usando o conceito dos Três Macacos como ponto de partida, e o maior diferencial é não se focar em técnicas comuns de confecção de roteiro, e sim no desenvolvimento desse conceito de formas variadas. E, no caminho, os personagens alcançam uma profundidade que enredos muito mais expositivos não conseguiriam dar.
Nuri, por outro lado, usa sua técnica como trampolim para uma aliança perfeita do visual do filme com sua história. As rimas que ele cria com a imagem são maravilhosas, usando de planos e localidades idênticas para criar situações diferentes que sempre casam com a “cena-gêmea”. Na verdade, esse apuro artístico mais parte da profundidade dos personagens do que a cria, mas, nesse processo, há uma reafirmação diretorial que se mostra extremamente coerente com o material escrito, para não dizer a inteligência com que essa reiteração é feita. Com sutileza, Ceylan varia as imagens ao apontar a câmera para lugares que já tinham sido mostrados antes, dando um mesmo significado a diferentes momentos, com um complemento de sinais dramatúrgicos elegantes e significativos. Essa escolha, aliada aos longos planos e cenas em câmera lenta peculiares em sua razão de ser, formam um sólido exercício de direção. No entanto, é uma direção diferente, bastante cara ao auteurs da atualidade, pois tudo é de um rigor artístico absoluto, incluindo-se aí a direção de atores.
O elenco primoroso tem que suportar a câmera diante de seus rostos constantemente, mas uma câmera imóvel, o que torna o processo um pouco diferente. Os atores não estão livres para improvisar ou deixar as emoções rolarem de forma natural, eles estão claramente atrelados às ordens do diretor. É um modo nada usual de fazer o trabalho. Ruim? Não. Diferente. Pode ser decepcionante ver um elenco tão intenso tendo, ocasionalmente, que se limitar a expressões faciais e minúsculas contrações do rosto, mas isso, embora apequene o trabalho deles, mostra que Ceylan é soberano no set de filmagens. O artista também investe numa fotografia espetacular, braço direito de sua aguda direção (e do conceito-primo do roteiro), e em excelentes efeitos sonoros que também reforçam a presença conceitual dos Três Macacos naquela família. Por fim, a displicência com que os diálogos são tratados, sempre atropelados pelos silêncios longos e poderosos, completa esse círculo fascinante que marca um trabalho intelectual e marcante do celebrado Nuri Bilge Ceylan.
P.S.: Esse tipo de arte violenta e esse conceito de auteur não me agradam em nada, tenho birra pessoal desse tipo de direção artística, por isso só fiz reconhecer o valor da obra. Sinto-me na obrigação de dizer que não gostei tanto no lado pessoal quanto o texto faz parecer.