Mostra Internacional de São Paulo #15 e #16
Escrito (* de *****)
Indo na contramão dos infames remakes de bons filmes orientais, Byung Woo Kim empresta elementos da última piração de Lynch, “Império dos Sonhos”, para construir sua arrogante narrativa. Auto-indulgente até dizer chega, o roteiro só se afunda mais por pegar a mesma premissa (personagens e atores se confundindo durante a produção de um filme) e tentar seguir um caminho diferente, com resultados desastrosos. Há uma tentativa de mudar de perspectiva, tentando achar uma lógica no jogo entre realidade e ficção, mas o plágio é tão vergonhoso que essa intenção só faz tornar tudo mais artificial. Como punhetação intelectual, o filme nem chega nas preliminares, e como experiência sensorial, só causa tédio – especialmente por usar de uma estética vomitada da série “Jogos Mortais”. Ao menos é coerente a horrenda fotografia, atolada de cores über-saturadas e um trabalho de iluminação patético. Com tanta inaptidão envolvida (excetuando-se alguns dos atores, que até que se esforçam para dar seriedade à coisa), não surpreende que as invencionices (provindos da direção embaraçosa de Byung) só causem bocejos e que essa cópia mal-feita não empolgue nem roubando trilhas sonoras de Hanz Zimmer e James Newton Howard.
Horas de Verão (***** de *****)
Quando os créditos de “Horas de Verão” começam, vemos uma cena apagada, de luminosidade falha, mostrando uma casa bucólica. Essa é a casa de Hélène (Edith Scob), mulher de 75 anos cujo tio, Paul Berthier, que foi um famoso artista e colecionador, inspira-lhe um imenso respeito, a ponto de ela cuidar de todos os pertences do falecido – incluindo o imóvel. É lá que os filhos Adrienne (Juliette Binoche), Frédéric (Charles Berling) e Jérémie (Jérémie Reiner), já adultos e mergulhados em suas carreiras, passam alguns feriados, em contraste com o longo tempo em que moraram no local durante a infância. E aí surge o mote do filme: as lembranças. A história está basicamente enraizada no conceito de memórias, de legados e nostalgias, e o que faz desse trabalho de Assayas uma obra primorosa é a beleza, eficiência e inteligência com que o tema é abordado.
Alcançando notas altas no quesito emoção, o roteiro tem calma para destrinchar seu conteúdo, usando o mote do legado de forma sublime. Hélène aparece como um tipo de mártir, cuja vida foi parcialmente devotada a um ideal de preservação e de consentida responsabilidade. O trio de filhos acaba recebendo esse fardo, e, a partir daí, com ajuda de uma edição espertamente episódica, acompanhamos os trâmites chatos que envolvem os pertences do artista que Hélène guardava – aliás, uma interessante variação no batido tema do testamento. E para provar que uma montagem heterodoxa não influi muito sobre a qualidade de um filme, outras discussões adicionam em complexidade e em sensibilidade à história, indo na direção oposta das aporrinhações legais que pontilham a narrativa.
Os objetos da casa têm imensa importância na história, e são tratados de formas distintas e precisas. Por exemplo, as pinturas de Corot da coleção de Berthier são o xodó de Frédéric, mas quando ele os mostra para os filhos, o entusiasmo não é grande por serem “de outra época”, mostrando como a visão do homem está atrelada ao carinho nostálgico. Mais tarde, os quadros se revelam os pertences mais valiosos da casa, e o amor fraternal faz com que estes sejam os primeiros a serem vendidos, pois Jérémie precisa do dinheiro. Cria-se aí um diálogo sobre o valor sentimental e o monetário, assim como uma ponderação sobre o passado e o presente, de forma simplesmente brilhante. De forma similar, a própria arte e o valor artístico dão outra dimensão à idéia de patrimônio, entrelaçando de forma belíssima elementos que, se observados a rigor, não parecem se misturar. Mas lá está: patrimônios de artistas, legados artísticos, são mostrados lado a lado com nostalgias infantis, expandindo ainda mais a noção temporal da discussão e relativizando-a sem que ela perca força: quando Eloise, que cuida da casa, escolhe um vaso para levar como lembrança sentimental, a ironia é tão inteligente e tão afável que parece um espelho para o filme como um todo.
Emocionante e agradável, mas nunca inocente ou hesitante, “Horas de Verão” tem a seu favor um elenco em estado de graça, encabeçado por um excepcional Berling, protagonista não só por ter mais tempo em cena, mas por ser o mais envolvido nos assuntos da família. O saudosismo é visível enquanto ele anda pela casa ou revira os assuntos do patrimônio, com uma sutil melancolia nos olhos, mas quando seu personagem demonstra ternura ou revolta, o meio-tom desaparece e sua atuação ganha a intensidade necessária. Binoche também está um arraso, confeccionando Adrienne como uma pessoa um pouco desenvolta e um pouco restrita, um pouco alegre e um pouco sisuda, alternando esses momentos de um jeito que chega até a refletir como deve ser sua vida profissional – uma das funções mais surpreendentes de sua atuação. Já Reiner tem pouquíssimo tempo em cena, mas em algumas poucas cenas ele mostra uma eficiência completa, também dando pistas sobre a carreira de Jérémie através da performance quase demagoga. Para completar, Scob causa uma forte impressão, mostrando-se melancolicamente animada ao receber a família em sua casa, e não tem medo de usar uma ou outra mania para reforçar essa impressão.
Some-se a tudo isso a direção de Olivier Assayas, estupenda, e o filme alça um vôo inabalável. Começando com uma complexa misè-en-scene que recria com perfeição o caótico encontro de família, o diretor usa câmeras afobadas, de movimentação incrivelmente livre e ao mesmo tempo precisa. Mais tarde, porém, tudo se acalma, e Assayas diminui o ritmo também, mas sem abrir mão de planos corretos e dinâmicos, nunca longos nem nunca curtos demais. Com o atrativo extra de uma trilha sonora econômica e uma cena final cheia de saboroso significado, essa pérola francesa cativa e instiga, oferecendo emoção e inteligência em generosas partes iguais, e completando uma experiência cinematográfica memorável.